Motor VW EA111, usado por Gol, Kombi, Golf e Audi, morrerá após 25 anos

Família de propulsores surgiu em 1996 e deixará o mercado em 2022 por causa da nova legislação de emissões que entrará em vigor no país
Por Leonardo Felix
02.06.2021 às 16h:33 • Att. há cerca de 8 meses
Família de propulsores surgiu em 1996 e deixará o mercado em 2022 por causa da nova legislação de emissões que entrará em vigor no país

Com Renato Aspromonte

O dia era 12 de outubro de 1996. Em meio à transição rumo ao fim da malsucedida Autolatina, uma aliança com a Ford que durou menos de dez anos, a Volkswagen inaugurava uma em São Carlos (SP) uma nova fábrica de motores. 

Lá, iniciaria a produção de uma linha de propulsores 1.0 com bloco de ferro fundido e soluções modernas para a época, a fim de substituir o velho e fraco CHT, de origem Ford, que equipou a família Gol por alguns anos no país, sendo sempre alvo de muitas críticas. 

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Família de propulsores surgiu em 1996 e deixará o mercado em 2022 por causa da nova legislação de emissões que entrará em vigor no país

Nascia a família EA111, que ganhou outros representantes ao longo dos anos e segue em linha até os dias atuais, empurrando os compactos Gol, Voyage, Saveiro e Fox na configuração 1.6 8V manual (Gol e Voyage automáticos usam o propulsor 1.6 16V MSI, enquanto as versões 1.0 usam o propulsor 1.0 três-cilindros 12V MPI, ambos da linha EA211).

Família de propulsores surgiu em 1996 e deixará o mercado em 2022 por causa da nova legislação de emissões que entrará em vigor no país

Só que a vida do EA111 está com os dias contados no Brasil. Após 25 anos de bons serviços prestados para a Volkswagen, a Mobiauto apurou que ele será aposentado em 2022, devido à nova legislação de emissões que entrará em vigor no país, o Proconve L7.

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O Fox será totalmente tirado de linha até dezembro deste ano, enquanto Gol e Voyage devem sobreviver apenas na opção 1.0 EA211 manual. Se a configuração 1.6 sobreviver, será com o motor 1.6 16V MSI. Já a Saveiro, de acordo com nossos informantes, trocará definitivamente o 1.6 8V EA111 pelo 1.6 16V EA211 em todas as versões.

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De 97 a 2021, os motores EA111 foram sempre produzidos nacionalmente em São Carlos, com três deslocamentos diferentes (1, 1,4 e 1,6 litro), diversas variações mecânicas – especialmente na especificação 1.0, como uso de duas ou quatro válvulas por cilindro, e até de turbocompressor – e algumas atualizações que alongaram sua vida útil.

Porém, como tudo na vida, o projeto ficou envelhecido e obsoleto demais para as novas normas de eficiência energética que o país adotará a partir do ano que vem. 

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EA111 1.0 e suas várias facetas

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Os primeiros motores 1.0 EA111 eram dotados de quatro cilindros com duas válvulas cada, injeção eletrônica multiponto, bloco de ferro fundido enriquecido com titânio, cabeçote com tampa estrutural que incorpora as capas dos mancais da árvore do comando de válvulas, bielas fraturadas, cárter parcialmente em alumínio e virabrequim com apenas quatro contrapesos para aliviar peso.

Com uma arquitetura bem mais sofisticada que a da família CHT e que o velho e cultuado AP, o motor EA111 – chamado na época de AT-1000 –, passou a equipar o Gol 1000 G2, o popular “Gol Bolinha”, em 1997. Rendia 62,5 cv de potência e 9,1 kgfm de torque na época, bem acima dos ínfimos 49,8 cv e 7,3 kgfm do Gol CHT. 

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No mesmo ano, a perua Parati recebeu uma derivação desse motor com 16 válvulas e sistema DOHC (duplo comando de admissão e escape), mas o ganho de potência e torque era tímido: 69,4 cv e 9,4 kgfm. Tal configuração passou a equipar a versão Mi do Gol na linha 1998. 

No entanto, problemas ligados à durabilidade da correia dentada tornaram a vida do EA111 1.0 16V curta. Ele não passou da linha 2004 de hatch e perua. E olha que, em 2002, tal especificação ganhou comando de válvulas roletado, como já ocorria no recém-chegado EA111 de 1,6 litro, e chegou a 76 cv e 9,7 kgfm.

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Outra variante que não durou muito foi a 1.0 16V turbo, usada pelo chamado Gol G3 (o primeiro facelift da geração “Bolinha”) por apenas quatro anos, de 2000 a 2003. Alcançava 112 cv e 15,8 kgfm e contava com comando variável de válvulas, mas também pereceu rapidamente diante da fama de baixa confiabilidade (potencializada pela falta de cuidados específicos por parte dos donos).

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Uma curiosidade sobre o motor 1.0 da família EA111 é que nos Gol G3 e G4, assim como na Parati, ele era montado longitudinalmente. Seu primeiro uso em modo transversal ocorreu em março de 2001, com importado o Seat Ibiza, que vinha equipado com o EA111 1.0 16v de 71 cv e 9,4 kgfm especialmente para o mercado brasileiro. Um ano mais tarde, o Polo de quarta geração nacional também adotou os propulsores 1.0 e 1.6 EA111 transversais.

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Dois anos mais tarde, o Fox nasceu com um projeto de cofre curto, quase como um monovolume, prevendo o uso somente de motores transversais a fim de otimizar o espaço interno. Por isso mesmo, todos os propulsores EA111 foram montados nele transversalmente. Com o Gol, isso só foi acontecer em sua terceira geração, conhecida como G5, em 2008.

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O Fox, aliás, foi o primeiro carro lançado no Brasil com motor 1.0 flex, em outubro de 2003. A usina era justamente a EA111 8V de 1 litro, que gerava 71 cv e 9,1 kgfm com gasolina, sendo 72 cv e 9,2 kgfm bebendo etanol.

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Entretanto, o Gol 1.6 Total Flex, primeiro veículo bicombustível nacional independentemente do tipo de motor, chegou ao mercado em março do mesmo ano, sete meses antes, utilizando o velho de guerra AP-1600 convertido para bicombustível.

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EA111 1.6, um motor que foi do Audi ao Gol

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Em 2001, o grupo Volkswagen colocou em prática um novo ciclo de investimentos no Brasil, abrindo uma fábrica em São Jose dos Pinhais (PR) para produzir o hatch médio Golf e seu irmão premium Audi A3. Os dois compartilhavam plataforma e motorização, incluindo o estreante 1.6 EA111 8V, a gasolina, de 101 cv e 14,3 kgfm montado transversalmente. 

Tal propulsor era feito em São Carlos, junto dos 1.0, mas continha alguns avanços mecânicos em relação ao irmão menor. O cabeçote de alumínio e o já mencionado comando de válvulas roletado, depois herdado pelas usinas de capacidade cúbica mais baixa, foram dois deles.

Sua missão era substituir o conhecido motor 1.6 SR (EA113) do Golf Mk4 importado, que rendia os mesmos 101 cv, porém com mais torque (14,8 kgfm) e bloco de alumínio, sendo mais leve e sofisticado do que o 1.6 EA111 do Golf Mk4 nacional.

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A simplificação não afetou tanto a imagem do Golf quanto a do Audi A3, que pouco empolgava com essa motorização. Por outro lado, ela casava bem com o Fox, que ignorou o velho AP-1600 do Gol e chegou ao mercado utilizando apenas motores transversais da família EA111. Por sinal, o 1.6 do Fox já era flex e rendia 103 cv e 14,5 kgfm com etanol.

O Golf 1.6 só passou a ser flexível em 2006, um ano depois da quarta geração do Polo e de seu irmão três-volumes, os dois munidos do EA111 bicombustível de 1,6 litro. Por sua vez, o Gol, a picapinha Saveiro e o ressuscitado sedan Voyage só trocaram o AP-1600 longitudinal pelo 1.6 EA111 transversal flex na virada para a terceira geração (G5).

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Outra curiosidade é que a perua Parati jamais usou o motor EA111 de 1,6 litro, ficando em linha até o fim de seus dias com a plataforma do Gol de segunda geração – e visual do G4, o segundo facelift desse ciclo – e o propulsor AP flex de 1,6 litro. 

Isso porque a motorização mais moderna estava reservada à SpaceFox, que seria sua sucessora (embora ambas tenham convivido no mercado por seis anos. Coisas de um outro Brasil...). Ou seja: foi a Parati a responsável por sepultar a conceituada família AP da Volkswagen, em 2012. 

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O polêmico motor refrigerado a água da Velha Senhora  

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Em 2006, a VW lançou no Brasil uma nova variante da família EA111, um propulsor 1.4 8V flexível de 76/80 cv e 12,5/12,7 kgfm. Sua utilização seria exclusiva da jurássica Kombi, que finalmente trocava o motor 1600 refrigerado a ar por um propulsor mais moderno, refrigerado a água.

A substituição, além de promover a morte dos motores a ar no Brasil e mexer com a cabeça de entusiastas, que cultuavam seu som característico e defendiam o uso devido à manutenção mais simples e barata, levou a van a adotar uma polêmica grade frontal para resfriar o radiador, o que descaracterizou o visual dianteiro da “Velha Senhora”.

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Dotada de uma cabine com novos componentes, que remetiam ao Fox, a Kombi 1.4 a água seguiu em produção até 2013, marcando os últimos oito anos de existência do veículo mais longevo da história da indústria automobilística brasileira. 

E só saiu de linha por conta da legislação que obrigava o uso de airbags frontais e freios ABS em todos os veículos leves zero-quilômetro comercializados no Brasil a partir de 2014, assim como acontecerá com o motor EA111, enterrado por uma nova lei de emissões.

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Evoluções e falhas mecânicas

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Já mencionamos algumas modificações técnicas pelas quais os motores EA111 passaram ao longo dos anos. Porém, foi com a chegada da nova geração do Gol e o ressurgimento do Voyage que a VW promoveu as mudanças mais profundas no projeto, tendo inclusivo tentado renomear a família para VHT. A nova sigla, porém, não pegou.

Naquele momento, a fabricante: redesenhou o filtro de ar; alterou o comprimento, o volume e a geometria das câmaras internas dos dutos do coletor de admissão; trocou o ferro fundido por chapas de aço no coletor de escapamento; adotou um novo comando de válvulas, alterando o tempo de abertura; instalou novos pistões, anéis de segmento e bielas mais longas; instalou uma nova correia dentada poli-V elástica em compressor do ar, direção hidráulica e alternador; aplicou uma nova ECU (central eletrônica).

Com as novidades, a usina de 1 litro, que já era flex, passou a render 72 cv de potência e 9,7 kgfm de torque com gasolina contra 76 cv e 10,6 kgfm bebendo etanol. Já a de 1,6 litro, igualmente flexível, alcançou 101 e 104 cv, respectivamente, sendo 15,4 e 15,6 kgfm. Tais números seguem os mesmos até os dias atuais.

Ao longo desse um quarto de século, os propulsores EA111 tiveram ganharam uma boa reputação, embora não tão transcendental quanto os icônicos AP. Mas também apresentavam seus defeitos, sendo que um deles quase pôs todo o projeto em xeque.

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Além das questões de confiabilidade, em especial da correia, que marcaram a vida dos 1.0 16V, os EA111 passaram por um momento delicado no mercado justamente em 2009, quando a VW colocou em prática o pacote mais robusto de atualizações no projeto: clientes começaram a relatar fortes ruídos em marcha lenta tanto no motor 1.0 quanto no 1.6. 

Primeiro, a fabricante relutou em admitir a gravidade da falha, alegando que a característica não gerava risco de segurança, porque o motor dava indícios prévios (os tais ruídos) de que poderia apresentar defeito e não pararia de funcionar repentinamente. 

Em outubro daquele ano, a marca enfim admitiu oficialmente o problema, apontando uma deficiência na lubrificação provocada, em algumas situações, pela perda das propriedades do óleo de primeiro abastecimento em função da ação do combustível etanol. 

Ocorreu que a própria VW havia alterado a especificação do óleo lubrificante na atualização dos EA111. Bastou retornar à especificação anterior que o problema foi resolvido. Além disso, a empresa ampliou a garantia dos motores produzidos entre abril de 2008 e outubro de 2009 de três para quatro anos.

Apesar desse perrengue, a família EA111 seguiu ativa por mais 13 anos e, após um quarto de século de serviços aparentemente muito bem prestados, obrigado, sai de cena para deixar os motores aspirados e turbinados da linhagem EA211 (MPI, MSI e TSI) seguirem adiante.

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