Mistério do 1º A3 Sedan nacional: por que Audi Senna está parado há 5 anos?

Em meio ao fim da produção do modelo no país, encontramos o primeiro A3 Sedan nacional no canto de uma garagem. Modelo tem pintura especial e homenageia Senna
Por Leonardo Felix
22.02.2021 às 20h:46 • Att. há cerca de 8 meses
Em meio ao fim da produção do modelo no país, encontramos o primeiro A3 Sedan nacional no canto de uma garagem. Modelo tem pintura especial e homenageia Senna

Novembro de 2015. O mercado automobilístico brasileiro mergulhava em uma crise que parecia passageira na época, mas foi intensificada com a pandemia do coronavírus e agora parece não ter fim. 

Naquele momento, apesar da retração do mercado, o clima ainda era de recuperação rápida e otimismo. E com o polêmico programa Inovar-Auto, que estabelecia limites para importação de veículos através de uma assustadora sobretaxa de 30 pontos percentuais de imposto, o vulgo “super-IPI”, muitas marcas planejavam abrir fábricas no Brasil.

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Entre elas estavam empresas do mercado premium, como BMW, Mercedes, Jaguar Land Rover e Audi. À época, a previsão era de que nosso mercado logo subiria de 3,5 milhões de automóveis e comerciais leves vendidos anualmente para 4, quiçá 5 milhões. Em 2020, sequer chegamos a 2 milhões.

Todavia, foi com aquele resquício de fartura que a Audi apresentou ao país o primeiro A3 Sedan produzido nacionalmente. A companhia das quatro argolas aproveitou as instalações da Volkswagen em São José dos Pinhais (PR) para criar lá a linha de montagem do três-volumes. Pouco depois, o SUV Q3 se juntaria a ele.

Para comemorar o início da operação, a marca  pediu que o artista Eduardo Kobra, um dos muralistas e grafiteiros mais famosos no Brasil e no mundo, preparasse uma pintura especial para o primeiro A3 Sedan saído da fábrica. Ela deveria trazer as cores do Brasil, em alusão ao fato de agora ser nacional, e homenagear Ayrton Senna. 

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Em meio ao fim da produção do modelo no país, encontramos o primeiro A3 Sedan nacional no canto de uma garagem. Modelo tem pintura especial e homenageia Senna
Apresentação do primeiro A3 Sedan nacional, em novembro de 2015 (Divulgação)

Caso o leitor não saiba, foi a família do tricampeão mundial de Fórmula 1 a responsável por trazer a marca ao país, como sua representante oficial de vendas, no embalo da abertura para as importações no princípio da década de 90. Nada mais justo que ligar os Audi de produção nacional à figura de um dos maiores ídolos de nosso esporte.

Assim nasceu o A3 Sedan Senna, junto de um enorme grafite em homenagem ao piloto criado, também por Kobra, num prédio perto da Avenida Paulista, um dos pontos mais famosos da cidade. 

Em meio ao fim da produção do modelo no país, encontramos o primeiro A3 Sedan nacional no canto de uma garagem. Modelo tem pintura especial e homenageia Senna
A3 Sedan Senna foi concebido junto com um mural criado por Kobra na parede lateral de um prédio ao lado da Avenida Paulista, no coração de São Paulo (Divulgação)

O A3 Sedan Senna continha duas enormes réplicas do autógrafo de Ayrton nos para-lamas traseiros, dois números 01 estampados nas portas laterais dianteiras e uma peculiar pintura formada por triângulos em tons de amarelo, dourado, laranja, verde e azul.

Pertencente à versão de entrada do modelo, Attraction, o exemplar não foi poupado de alguns elementos controversos do A3 Sedan brasileiro: suspensão traseira simplificada em relação ao importado, passando do tipo independente para o eixo de torção, e câmbio automático de seis marchas Tiptronic no lugar do automatizado de dupla embreagem DSG.

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Veículo tem até hoje a placa com o nome "A3 Sedan Senna", pois nunca foi emplacado de fato (Leonardo Felix/Mobiauto)

O motor era o 1.4 TFSI Flex, um turboflex com injeção direta de 150 cv e 25,5 kgfm. Sim, estamos falando do mesmíssimo conjunto mecânico que hoje equipa VW T-Cross Highline, a linha GTS de Polo e Virtus, versões de entrada de Jetta e Tiguan e, muito em breve, toda a gama do SUV compacto-médio Taos na América do Sul.

Na época, a Audi avisou que o modelo passaria um ano sendo exibido em lounges ou outros eventos de marketing promovidos pela empresa. Depois, seria leiloado e o dinheiro arrecadado, doado ao Instituto Ayrton Senna.

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Carro está parado no canto do quinto e último subsolo de um prédio na zona sul de São Paulo, onde a Audi guarda outros veículos de sua frota (Leonardo Felix/Mobiauto)

Cinco anos e três meses depois, o otimismo se esvaiu e toda a operação fabril da Audi no Brasil está suspensa. Diferentemente da Mercedes-Benz e da Ford, que já anunciaram a decisão de não mais fabricar carros em nosso país, a marca do grupo Volkswagen ainda não divulgou oficialmente se dará sequência ou não à montagem local de veículos.

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Réplicas enormes do autógrafo de Ayrton Senna compõem os para-malas traseiros (Leonardo Felix/Mobiauto)

Entretanto, para retomar as atividades, a fabricante alemã reivindica um crédito de mais de R$ 100 milhões em benefícios fiscais do Inovar-Auto. Segundo a marca, aqueles 30 pontos extras de IPI foram na prática cobrados e nunca devolvidos às empresas que se comprometeram a investir na produção local de veículos.

Enquanto aguarda um parecer do governo para dizer se abandona definitivamente ou não sua linha de montagem em território nacional, a Audi não vem fabricando nenhum carro no Paraná desde o fim do ano passado. A linha do Q3 já fora desativada em 2019 e a do A3 Sedan se encerrou no fim de 2020.

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Já os para-lamas dianteiros trazem a assinatura de Eduardo Kobra, o criador da pintura (Leonardo Felix/Mobiauto)

Enquanto as últimas unidades do A3 Sedan nacional eram entregues este mês às concessionárias, uma dúvida pairou no ar: o que aconteceu com o A3 Sedan Senna nº 01? Na prática, o tal leilão nunca aconteceu e o modelo simplesmente desapareceu da mídia. Teria sido ele simplesmente destruído?

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O número 01 brinca com o número usado 1 por Senna nas temporadas de 1989, 91 e 92 da F1, e também faz alusão ao fato de ser o primeiro A3 Sedan nacional (Leonardo Felix/Mobiauto)

Felizmente, não. A reportagem da Mobiauto encontrou, por incrível obra do acaso, o A3 Sedan Senna ainda vivo, e até bem conservado, nos fundos da garagem de um prédio comercial de São Paulo (SP).

A pintura de Kobra está impecável, assim como as rodas de liga leve. Não conseguimos tirar fotos internas, porque a iluminação era baixa e a câmera não captou com nitidez as imagens do painel. Entrementes, pudemos ver que o interior do três-volumes continua igualmente muito bem mantido.

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Pintura faz predominar os tons de amarelo, verde e azul, mas também conta com triângulos na cor laranja (Leonardo Felix/Mobiauto)

Fontes nos contaram que o modelo ainda pertence à Audi, mas que ele está pelo menos desde meados de 2016 estacionado no mesmo local e não há um planejamento oficial para conservá-lo. Na verdade, funcionários da empresa costumam manter a limpeza e a manutenção do veículo em dia por conta própria.

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Rodas de liga leve aro 17 de cinco raios e aberturas bem generosas são marca registrada do A3 Sedan nacional, e estão muito bem cuidadas na unidade nº 1, preservando até a capinha dos parafusos com o logo da marca ao centro (Leonardo Felix/Mobiauto)

O veículo estaria sem bateria e, portanto, sem possibilidade de rodar. Na verdade, ele nunca foi emplacado e não pode andar em vias públicas. Até porque, de acordo com outro informante, sua cor original é branca e esta informação nunca teria sido retirada de seu documento, o que geraria um conflito com sua pintura de fato.

Deste modo, é bem provável que o A3 Sedan Senna tenha baixíssima quilometragem no odômetro. Procurada por nossa reportagem, a Audi confirmou que o carro ainda é de sua propriedade, e garantiu que vem trabalhando para mantê-lo em bom estado, mas que ainda não sabe qual será seu destino e estuda o que fazer com ele.

No entanto, segundo a montadora, “não há chance de o modelo ser destruído nos próximos anos”. Isto, por si, já é um alento. Mas por que o leilão e a subsequente doação de fundos ao Instituto Ayrton Senna não ocorreu? Oficialmente, a marca se resumiu a dizer que foi uma “decisão interna”.

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Suspensão traseira por eixo de torção foi uma das simplificações mais polêmicas do A3 Sedan nacional (Leonardo Felix/Mobiauto)

Nossos informantes deram mais detalhes da história: como a empresa demorou muito a fazer a venda, teria perdido o apelo inicial do projeto. Consequentemente, o valor estimado para arrecadação caiu muito e sobraria muito pouco, entre custos com o processo de leilão, para doar de fato ao instituto. As partes teriam decidido, então, desistir da promessa.

De acordo com nossas fontes, há cinco possíveis destinos para o A3 Sedan Senna: 1) ser mantido no portfólio e exibido em algum espaço da marca no Brasil; 2) ser abraçado pelo museu da matriz, na Alemanha; 3) ser doado para algum outro museu ou entidade, incluindo o próprio Instituto Ayrton Senna; 4) ser repintado na cor branca e vendido no mercado de usados, como se nunca tivesse sido especial; 5) (Respire fundo!) ser destruído após alguns anos caso nenhuma das tentativas anteriores dê certo.

Agora nos resta torcer para que o bom senso prevaleça e a preservação da História, idem. Que pelo menos o A3 Sedan Senna tenha um destino diferente de quase todas as recentes incursões fabris de marcas premium no país (exceto, talvez, a da BMW): virar ferro-velho.

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