Como as mortes ligadas ao Autopilot viraram um risco para a Tesla

Lista de acidentes atribuídos a falha no sistema de condução autônoma cresceu 11% só neste ano. Número de vítimas passa de 200, em 19 países
Por Jornalista Convidado
09.09.2021 às 15h:16 • Att. há cerca de 12 dias
Lista de acidentes atribuídos a falha no sistema de condução autônoma cresceu 11% só neste ano. Número de vítimas passa de 200, em 19 países

Por Homero Gottardello

A direção autônoma é, talvez, o maior desafio da indústria automobilística desde que o automóvel se tornou um bem de consumo, um produto acessível às massas. De modo que, quando a Tesla apresentou o sistema Autopilot, as ações da empresa atingiram a estratosfera e uma nova página foi virada. 

Ocorre que, na medida em que os modelos da marca americana foram ganhando maior participação na frota circulante, começaram a pipocar ocorrências em que as falhas no sistema provocaram acidentes gravíssimos, com vítimas fatais, colocando em xeque a tecnologia que, até outro dia, inaugurou um novo conceito de mobilidade. 

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“Aconteceu muito rápido. Eu deixei meu telefone celular cair, olhei para baixo e bati no carro à frente”, narrou George Brian McGee, um executivo do ramo financeiro norte-americano, ao jornal “New York Times”. Ele retornava para casa a bordo de seu Model S, com o modo Autopilot acionado, em abril de 2019.

Ao abaixar para pegar seu smartphone, nem McGee e nem o Autopilot perceberam que a estrada estava fechada. Não viram nem a placa nem as luzes vermelhas de alerta na rodovia. Seu Model S passou por ambas e acertou a traseira de um Chevrolet Tahoe, que estava parado, matando o estudante Naibel Benavides, de 22 anos. 

Mais do que uma nova fatalidade, envolvendo um Tesla, este acidente teve sua peculiaridade: o condutor do veículo – no caso, McGee – sobreviveu para contar o que havia acontecido. 

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A investigação da Polícia Rodoviária do Estado apurou que o motorista falava ao telefone no instante do engavetamento, o que é permitido pela legislação de trânsito da Flórida, mas o fato é que o sobrevivente apontou, inequivocamente, que o sistema autônomo não funcionou.

Sobreveio ao fato uma discussão sobre o risco de se usar o Autopilot em estradas vicinais, que não têm semáforos, sinais de parada ou faixas de pedestres e fato é que o próprio manual do proprietário do Model S alerta sobre os riscos de se habilitar o sistema, em áreas urbanas: 

“O não cumprimento dessa instrução pode causar danos, ferimentos graves ou morte”. Na verdade, a tecnologia disponibilizada hoje pelas montadoras é considerada semiautônoma (nível 2 de um total de cinco) e superestimá-la é sim, além de uma insciência, um grande perigo. 

“Este tipo de piloto automático tem limitações e a própria Tesla alerta sobre isso, mas de que adianta avisar os condutores se, na prática, é possível habitá-lo em pontos onde é inseguro [usá-lo]?”, indaga o diretor-executivo do Centro de Segurança Automotiva (CAS) de Washington, também nos Estados Unidos, Jason K. Levine.

Para ele, ao permitir que os próprios motoristas escolham se vão ou não usar o Autopilot em trechos onde o sistema não é 100% seguro, a Tesla contribui para que verdadeiras tragédias aconteçam. “São acidentes que poderiam ter sido evitados”, acrescenta Levine. Mas a coisa não para por aí.

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Órgãos de regulação americanos estão investigando falhas potenciais do Autopilot e já descobriram que suas câmeras, seus radares e seu software, às vezes, falham no reconhecimento de outros veículos e de objetos adjacentes. 

Um casal californiano está processando a Tesla por causa de um acidente que vitimou seu filho de 15 anos. Em julho, um engavetamento idêntico ao narrado no início deste texto foi registrado em San Diego, quando outro modelo da Tesla atingiu a traseira de um SUV que estava parado, em função de outro acidente que acontecera mais cedo. 

Ao todo, pelo menos nove mortes, de um total de 205, são atribuídas diretamente a falhas do dispositivo de condução autônoma. Só nos primeiros oito meses de 2021, o número de fatalidades cresceu 11% em relação a todo o ano passado.

“O Autopilot não olha o Instagram enquanto opera”, disse o diretor de inteligência artificial da Tesla, Andrej Karpathy, durante um workshop sobre direção autônoma, no último mês de julho. 

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A afirmação, que soa como patifaria, tenta imputar a responsabilidade pelos acidentes à desídia dos próprios clientes da marca – o que se, juridicamente, já é questionável, comercialmente é um tiro no pé. 

“Enquanto o piloto automático está no comando, o motorista pode relaxar, mas não deve se desligar. Deve manter as mãos no volante e os olhos na estrada, pronto para assumir o controle caso o sistema se torne inoperante”, continua Karpathy, agora em tom conciliador.

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As mortes atribuídas a falhas do Autopilot ocorreram em 19 países: Alemanha, Austrália, Áustria, Bélgica, Canadá, China, Coreia do Sul, Dinamarca, Espanha, Eslovênia, Estados Unidos, Holanda, Japão, Noruega, Portugal, Reino Unido, Suíça, Ucrânia e Taiwan. 

Só nos EUA, a Administração Nacional de Segurança Viária (NHTSA) tem duas dezenas de investigações em andamento que, se concluírem que o sistema da Tesla é falho e responsável por fatalidades, podem forçar os órgãos reguladores a acionarem a montadora judicialmente. 

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“Não é tudo isso, mas estamos nos esforçando para melhorá-lo”, twittou o próprio Elon Musk, fundador da Tesla, sobre a mais recente versão do software de direção autônoma, o FSD Beta 9.2. Lá, de onde só recebemos as boas notícias, a reputação de Musk anda em baixa e suas fanfarrices já despertam incredulidade no público menos ingênuo.

Certificação de Nível 3? Só o novo Audi A8 possui

Antes de prosseguir, é preciso que o leitor tenha em mente, de forma bastante clara, que não existe um único modelo à venda com Nível 5 de condução autônoma. Este nível, o mais alto, também é o único que dispensa por completo a interferência humana – dispensando, inclusive, carteira de habilitação. 

No Nível 2, que corresponde ao Autopilot da Tesla, o automóvel se desloca de forma automática sob certas condições, mas o condutor deve permanecer alerta para intervir a qualquer momento. É indicado e muitíssimo útil em rodovias de pista dupla, mas, assim que a rota programada se aproxima de uma saída, o controle é devolvido ao motorista.

Obviamente, não são as próprias montadoras que classificam seus sistemas de condução autônoma, que são certificados pela Sociedade de Engenheiros da Mobilidade (SAE) em nível internacional. O único modelo classificado com o Nível 3, até o momento, é o novo Audi A8 com seu Traffic Jam Pilot (TJP).

Nos EUA, a opção pelo Autopilot encarece o Model S em US$ 10.000 (portanto, um opcional que custa o equivalente a mais de R$ 53 mil) ou US$ 199, no caso da prestação dos veículos adquiridos por leasing. 

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Não é nada barato, principalmente para os padrões americanos (nos EUA, o Model S tem preço básico de US$ 82.990), mas pode custar caríssimo para a própria Tesla. É que um comunicado da consultoria Morgan Stanley, publicado há 20 dias, lista a tecnologia de condução autônoma como um “fator de risco” para a imagem da marca: 

“Os investidores devem ter ciência sobre a segurança de um veículo, na medida em que sua direção é entregue a um software. Neste sentido, os riscos em termos de reputação são maiores do que em termos diretos, financeiros”, diz o relatório. 

Os analistas apontaram um ‘price target’ de US$ 900 para um ativo da empresa, com uma expectativa de valorização que não excede os 35%.

A Tesla promete para breve uma atualização do Autopilot capaz de obter a certificação Nível 3, mas, no momento, parece que o prestígio que acumulou nos últimos anos sofre seu primeiro revés.  Isso porque todos já perceberam que Musk é um vendedor nato, para quem uma boa oportunidade de negócio fala mais alto que qualquer escrúpulo. 

Malandro, não promete mais do que seu sistema de condução autônomo é capaz de fazer, mas deixa o limite por conta da imaginação dos seus próprios clientes que, na base da credulidade ou da ambição, acabam atribuindo ao piloto automático uma capacitação que, na verdade, ele não possui. 

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E, pior, entregam sua segurança e a de seus familiares nas “mãos” de uma tecnologia que, convenhamos, está em sua primeira geração.

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“Uma investigação preliminar fundamentou a decisão da agência de avançar na coleta de dados e informações”, disse um porta-voz da NHTSA à revista “Industry Week”, a maior referência do segmento executivo norte-americano, desde o final do século 19, sobre o enquadramento da Tesla. 

O órgão foi instado a abrir um processo, por meio de uma determinação de dois senadores norte-americanos: Richard Blumenthal, de Connecticut, e Ed Markey, de Massachusetts. “Frisamos que nenhum veículo comercializado, hoje, é capaz de dirigir sozinho”, enfatizou um comunicado da NHTSA, depois de a polícia do Texas apurar que, em um acidente fatal envolvendo um veículo da Tesla, simplesmente não havia ninguém ao volante. 

O fabricante “deturpa” a tecnologia e “dá aos motoristas uma falsa sensação de segurança”, disseram Blumenthal e Markey, em seu memorando.

Como se vê, a língua de Elon Musk e o Autopilot são, hoje, o maior risco para quem cogita investir na Tesla, cujas ações chegaram a cair quase 4% em agosto. Mas é como diz o velho ditado: “Enquanto houver cavalo, São Jorge não vai andar a pé”.

Imagem destaque: S.Engleman / ntsb.gov
Imagens texto: CanadianPhotographer56 / Roschetzky Photography / Tierney MJ / Yauhen D -
Shutterstock.com

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