Ford prevê perder até 30% do faturamento para marcas chinesas

Jim Farley, CEO da Ford, faz previsão e acredita não ter escolha sobre os carros elétricos
HG
Por
01.03.2024 às 20:34
Jim Farley, CEO da Ford, faz previsão e acredita não ter escolha sobre os carros elétricos

O presidente-executivo (CEO) da Ford, Jim Farley, não tergiversou e afirmou, na semana passada, que “as montadoras chinesas representam uma ameaça colossal” para as marcas ocidentais e que produzir “EVs menores e mais acessíveis não é mais uma escolha, mas uma necessidade”. De acordo com ele, mesmo gigantes como a Ford podem perder até 30% de seu faturamento, quando os chineses entrarem para valor nos mercados europeu e norte-americano.

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“Nossas receitas estão em risco e, se até 2017, não conseguirmos enfrentar essa nova concorrência, prevejo perdas financeiras”, acrescentou. Uma plataforma compacta, capaz de gerar ganhos em um prazo muito curto, de um ano, surge como tábua de salvação para os norte-americanos. “

Vamos investir num EV comercialmente acessível e não quero um projeto qualquer, uma porcaria qualquer. Os consumidores estão nos dizendo que desejam um modelo elétrico realmente econômico, muito mais eficiente do que um Honda Civic ouToyotaCorolla podem ser. Só em 2024, perderemos US$ 5 bilhões – o equivalente a R$ 24,8 bilhões – com os EVs que temos em nosso portfólio. Então, precisaremos de recuperar este prejuízo, em curto prazo”, declarou Farley, durante a a Wolfe Research Global Auto Conference, em Nova York, evento voltado para investidores.

Com o barco “fazendo água”, Ford e General Motors já admitem parcerias com fabricantes chineses, como forma de reduzir custos de desenvolvimento. “Temos que ser mais eficientes nas partes industrial, tecnológica e financeira. Havendo maneiras de fazermos parcerias e melhorarmos nossa produção, não há razão para descartar uma aproximação”, disse a CEO da GM, Mary Barra, no mesmo evento.

“Hoje, estamos muito próximos de equilibrar nossos custos no mercado norte-americano, alcançado com um volume anual de 300 mil EVs. No ano passado, ficamos aquém desta meta em virtude de gargalos que tivemos na fabricação dos módulos de baterias e falhas apresentadas no software usado pelo novo Blazer elétrico, mas vamos superar essas dificuldades”, garantiu a chefona da companhia.

No Brasil, onde a participação dos EVs no mercado de automóveis (carros de passeio e comerciais leves) não chega a 1%, é difícil mensurar os riscos que uma ofensiva chinesa representa. Mas no México, que faz fronteira com os EUA e que, historicamente, sempre foi um dos maiores mercados para os veículos norte-americanos, os modelos “made in China” já responderam por 25% das vendas, em 2023. “As coisas estão mudando”, reconhece o CEO da Ford, Jim Farley.

A verdade é que tanto a Ford quanto a GM enfrentam uma enorme pressão de seus acionistas, que preferem ver suas ações melhor remuneradas do que ver o dinheiro ser investido no desenvolvimento de novos EVs – é o bom e velho capitalismo na sua essência: a grana tem preferência em relação ao próprio negócio, até porque, amanhã, esses mesmos investidores venderão suas participações e comprarão ações da Nvidia.

Dividendos especiais

No início deste mês, a Ford anunciou que pagaria “dividendos especiais” de US$ 720 milhões (o equivalente a R$ 3,5 bilhões) para seus acionistas, mas o número que pode impressionar o leitor tupiniquim significa, na verdade, US$ 0,18 (dezoito centavos de dólar ou o equivalente a R$ 0,90 por ação).

Como se pode ver, parece um valor pouco sedutor para quem aposta alto na “roleta” do setor financeiro. Stellantis e Renault, apenas para citar outras duas companhias ocidentais, também tiveram que acalmar os acionistas, na semana passada, e anunciaram que recomprarão ações dos investidores insatisfeitos e remunerarão os que seguirem com seus papéis com dividendos maiores. A Stellantis, corroborando a visão da Ford para o futuro, confirmou o investimento de mais de US$ 50 bilhões, até 2035, para eletrificar todas as linhas de suas marcas, na Europa, e 50% de todos seus veículos nos EUA, até 2030

 “Quando a concorrência chinesa invadir nossos mercados, vendendo EVs pelo mesmo preço que vendemos nossos modelos equipados com motores a combustão interna, teremos um problema que lutar pela nossa sobrevivência, porque isso ocorre ao mesmo tempo em que os governos dos países ocidentais praticamente impõem, com novas regulações, que só poderemos vender de veículos 100% elétricos, sem emissões”, explica o CEO da Stellantis, Carlos Tavares. “Parece óbvio que as marcas que não conseguirem ganhar dinheiro com a produção desses EVs irão desaparecer”, concluiu.

O que o homem médio, a pessoa comum e, principalmente, o sujeito que foi cegado pela paixão por automóveis não conseguem enxergar é que o dinheiro jogado aos tubarões – vulgo, aos investidores – vem, na verdade, do bolso do consumidor enamorado.

É por isso que a superexploração dos mercados menos qualificados, como Brasil e todos os países da América “Latrina”, é uma condição ‘sine qua non’ para a manutenção desta ciranda financeira. Os chineses, com carros mais baratos, econômicos e avançados, tecnologicamente, já dominaram os mercados asiáticos, do Oriente Médio e Leste Europeu, plantando sementes nos países africanos onde há um mercado de automóveis, mesmo que incipiente.

Resta, então, às marcas que conhecemos desde crianças e que, por infantilidade, associamos a valores positivos, chegando ao absurdo de termos Belinas, Chevettes, Opalas e Passats como verdadeiros membros da família, a espoliação completa.

Ao fim, é por isso que pagamos os maiores preços do mundo por modelos ultrapassados: porque estas mesmas marcas precisam se manter vivas diante do avanço global dos chineses e, principalmente, darem mais dinheiro para seus acionistas do que eles teriam, se colocassem seus milhões na poupança ou simplesmente os deixassem parados, na conta bancária. O nome técnico disso é neocolonialismo voluntário.

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