Chefão da Stellantis europeia teme “colapso financeiro”
Passado e futuro se encontram no presente. De um lado, a gigante ítalo-franco-norte-americana Stellantis, dona de Chrysler, Fiat, Jeep, Peugeot, Citroën e RAM, dentre outras 14 marcas, com vendas globais de 2,6 milhões de veículos, só no primeiro semestre deste ano. Do outro, a sueca Polestar, única marca europeia que só produz veículos elétricos (EVs) e que, apesar de ter números bem menores (30,3 mil unidades, no mesmo período), comemora um crescimento de mais 50%, em relação a 2024. A vida apartada da virada da eletromobilidade deixa o brasileiro médio, além de desatualizado em relação aos principais mercados mundiais, bastante confuso.
Por aqui, até mesmo os que se julgam grandes entendedores de carros garantem que os EVs são uma moda passageira e que o automóvel elétrico “já deu errado três vezes” – nenhum deles é capaz de listá-las na História, mas deixemos para lá. Ocorre que na Europa, onde ficam as sedes das multinacionais que seguem empurrando veículos equipados com motores a combustão interna goela abaixo dos tupiniquins, a banda toca de outro jeito.
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No Velho Continente, a preocupação com o amanhã que se avizinha é que pauta o hoje e, enquanto o presidente-executivo (CEO) da Polestar (leia-se Geely e Volvo), Michael Lohscheller, garante ter encontrado o mapa da mina, o chefão europeu da Stellantis, Jean-Philippe Imparato, alerta para o “colapso financeiro” do setor.
Lohscheller e Imparato foram ouvidos durante o “Salão da Mobilidade de Munique” (IAA Mobility 2025), encerrado no último domingo, onde estiveram nada menos que 116 expositores de novas marcas chinesas, com destaque para Aito, BYDA, Changan, Chery, Forthing, GAC, Hongqi, Leapmotor, Linktour e XPeng, que levaram para a Alemanha toda sua tecnologia de ponta e soluções digitais inéditas, com foco marcante em e-SUVs, sedãs elétricos e híbridos plug-in.
“Como se viu, há prioridades para salvarmos o setor europeu e a primeira, que é crucial para nossa lucratividade, são as regulamentações de emissões para veículos comerciais leves (VCLs). Elas precisam ser afrouxadas para o período entre 2030 e 2035, estendendo o cálculo médio a fim de orientar os clientes finais em sua transformação cultural e técnica”, pontua o diretor de operação (COO) da Stellantis para a Europa.
Obviamente, Imparato não está falando de fazer veículos comerciais leves melhores e mais econômicos para os transportadores, mas de um aspecto empresarial que diz respeito exclusivamente à Stellantis e seus acionistas. “Hoje, detemos 30% do mercado de VCLs, no Velho Continente, com 10% de participação no mercado de EVs.
Se quiséssemos atingir 20% do mercado de veículos comerciais totalmente elétricos, precisaríamos aumentar nossa participação geral para 60% do mercado europeu e essa não é uma meta atingível”, argumenta o executivo. “Os governos – sempre eles e nunca a iniciativa privada – precisam incentivar a renovação da frota. Hoje, existem 256 milhões de automóveis na Europa, com idade média de 12 anos. Deste total, 150 milhões têm mais de dez anos. Então, se eu descartar um carro de 2010 e substituí-lo por um EV novo ou por um usado com menos de três anos, economizarei 76 gramas de gás carbônico”, calcula.
Preso ao passado, ele está falando de incentivos tributários – caso o leitor não tenha entendido. “Não estou pedindo dinheiro. Só estou dizendo que, se um dos meus revendedores descartar um de seus comerciais leves com mais de dez anos, seria justo que os legisladores reconhecessem a economia de CO₂ e a contabilizassem para fins de conformidade”, argumenta Imparato.
Custos diminuindo
Já a Polestar parece ter encontrado o caminho para o futuro e seu novo CEO, Michael Lohscheller, foca soluções internas, privadas, que não dependem dos governos. “Controle de custos, aumento de pontos de venda e bons produtos: foi assim que revertemos a tendência nos últimos meses”, disse ele, durante a apresentação do sedutor “Grand Tourer” Polestar 5, no Salão da Mobilidade de Munique.
“Ainda vamos melhorar bastante, mas aumentamos nossas vendas no primeiro semestre deste ano em 51%, resultado muito positivo e que tem muito a ver tanto com a ampliação da rede quanto com a chegada de novos modelos, como o Polestar 4. Essa combinação nos ajudou a aumentar as comercializações, em que pese o fato de nossos resultados financeiros não serem tão positivos. Se analisarmos nossos números e fizermos uma comparação com o volume de 2024, a receita cresceu significativamente, em mais de 55%. No entanto, nossa margem bruta ainda é negativa, mas nossos custos estão diminuindo”, pondera.
No caso da Polestar, a empresa definiu prioridades e optou por uma aproximação com os clientes. “Em marketing, por exemplo, preferimos mais eventos presenciais do que televisão. Focamos nas pessoas e em nossos distribuidores, porque nossos concessionários conhecem melhor os consumidores, principalmente quando pensamos em uma abordagem mais personalizada e na compreensão dos regionalismos”, explica Lohscheller, reafirmando a importância do produto para a marca. “Acabamos de lançar o Polestar 5 e, em 2028, lançaremos o Polestar 7, um e-SUV compacto com que vamos ampliar nossa participação no mercado europeu”, acrescenta.
Para o executivo, o futuro da mobilidade é a eliminação dos motores a combustão interna e o prazo de 2035, posto pela União Europeia, não deve ser estendido. “Devemos manter o rumo que escolhemos”, declara. “A situação não mudará tão rapidamente e precisamos garantir a continuidade, evitando que as pessoas sintam que não há um direcionamento político correto. A legislação é clara e consistente, investindo no futuro”, destaca.
“Não concordo de jeito nenhum com os fabricantes que estão pedindo um adiamento do prazo de 2035. Voltar ao passado não levará adiante”, conclui Lohscheller.
Política desesperada
As abordagens aparentemente antagônicas de Lohscheller e Imparato para a virada da eletromobilidade podem ser melhor compreendidas pelo leitor, observando a capitalização de mercado de ambas as empresas. Nos últimos noves meses, o valor da Stellantis derreteu 67,2%, de quase US$ 88 bilhões (o equivalente a R$ 468 bilhões) para US$ 28,8 bilhões (R$ 153 bilhões), enquanto a Polestar experimentou uma valorização de 52,6%, só nos últimos seis meses, para US$ 2,9 bilhões (R$ 15,4 bilhões).
É óbvio que são companhias de portes distintos – a Stellantis vende mais de 85 unidades, entre compactos, sedãs, híbridos, picapes e comerciais leves, para cada EV comercializado pela Polestar – mas, não se pode esquecer: “quanto mais alto, maior o tombo”. E apesar da enorme vantagem, em termos de volume, a gigante transnacional vale, hoje, apenas nove vezes mais do que a pequena marca sueca. Nesta conjuntura, as antigas montadoras buscam uma solução política desesperada.
Em uma cúpula de líderes, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, disse que a União Europeia (UE) revisará a proibição dos motores a combustão interna, programada para 2035, à luz das atuais dificuldades enfrentadas pela indústria, que suplica uma revisão das regulamentações.
Em uma carta conjunta, o presidente do Conselho Administrativo e CEO da Mercedes-Benz, Ola Kaellenius, disse que a meta é inviável: “Estamos sendo obrigados a nos transformar, mas com as mãos atadas. A UE terá que impulsionar o mercado de EVs com incentivos ao consumidor, como isenções fiscais – ou seja, o estado é pressionado a assumir os prejuízos decorrentes da incompetência da iniciativa privada”.
Todavia, o recado publicado por Ursula, na semana passada, foi lacônico: “Equalizaremos descarbonização e neutralidade tecnológica”. No mesmo encontro, ela recebeu de grupos ambientalistas e representantes da indústria de veículos elétricos uma carta pedindo que ela “se mantenha firme quanto à descarbonização total dos zero-quilômetro, em 2035”, argumentando que isso impulsionará melhor a inovação e o investimento.
O que se vê lá, assim como cá, são as antigas montadoras exigindo que o governo sobreponha a cobiça – privada – delas aos interesses coletivos da sociedade, mormente aos direitos de um meio ambiente habitável para as futuras gerações. Vejamos no que vai dar!
Este texto contém análises e opiniões pessoais do colunista e não reflete, necessariamente, a opinião da Mobiauto.
Jornalista Automotivo
Trabalha como jornalista há 30 anos, e tem, na Mobiauto, uma coluna com seu nome. Escreve sobre novos carros, indústria e polêmicas do setor automotivo. Mais do que isso, cobre todas as inovações tecnológicas oferecidas do outro lado do mundo.
