VW Up! morre no Brasil: cinco motivos que explicam o fracasso

Preços salgados e visual diferentão falaram mais alto que o bom nível de segurança e a atualizada plataforma do hatch
Por Renan Bandeira
08.04.2021 às 16h:48 • Att. há cerca de 1 mês
Preços salgados e visual diferentão falaram mais alto que o bom nível de segurança e a atualizada plataforma do hatch

É oficial: o Volkswagen Up! não será mais vendido no Brasil. Depois de inúmeras especulações, a marca alemã retirou o veículo de seu configurador e confirmou o fim da produção do subcompacto, que foi o primeiro a perder espaço para o futuro veículo de entrada da montadora, o Polo Track (revelado em primeira mão pela Mobiauto).

No final do ano passado já havia a dúvida sobre se o Up! seguiria em linha ou não. Concessionários relatavam a falta do modelo nos estoques e o sinal de alerta para a morte do hatch ficou ligado até a fabricante confirmar, no fim de dezembro, a chegada tardia da linha 2021 do modelo em versão única, a Xtreme 1.0 TSI, homologado para quatro em vez de cinco passageiros.

No entanto, sua manutenção no mercado durou apenas três meses, com pouco mais de 1.800 unidades emplacadas no período.

Anuncie seu carro sem pagar na Mobiauto

O hatch chegou ao mercado nacional em 2014 com visual diferenciado, mais puxado para o design europeu, com a difícil missão de ser o novo carro de entrada da marca no país, com boas chances de substituir o Gol e o Fox. Chegou a ser anunciado como o “Fusca do século 21” por executivos da marca. 

Entretanto, o modelo não fez o sucesso esperado e jamais passou perto das primeiras posições nos rankings de venda. Em sete anos de lojas, vendeu quase 230 mil unidades, o que pode parecer um bom volume de vendas, mas não fez jus ao que era esperado para quem prometia ou pretendia ser o carro mais vendido no Brasil.

Mas o que fez o Up! fracassar? A Mobiauto elencou cinco motivos que mostram por que ele não se deu tão bem quanto o esperado. Veja:

1) Estratégia de lançamento

Preços salgados e visual diferentão falaram mais alto que o bom nível de segurança e a atualizada plataforma do hatch

Quando foi apresentado ao país, em 2014, o Up! prometia provocar o mesmo impacto no mercado que o Fusca conseguira algumas décadas antes. Isso tanto no Brasil quanto na Europa. Só que a comparação prepotente com o besouro, um dos carros mais vendidos no mundo, tornou a vida do subcompacto mais complicada. 

Já no lançamento a Volkswagen aplicou preços mais salgados do que um carro com dito apelo popular deveria ter, além de oferecer uma gama confusa de versões (inclusive nos nomes, mesmo trabalhando com uma única motorização, o 1.0 MPI três-cilindros aspirado flex de 82 cv na época) e mais confusa ainda nos enormes pacotes de opcionais. 

Para piorar, o mercado estava na iminência de uma crise que afetaria profundamente o perfil dos consumidores. A era das vendas desenfreadas de compactos pelados em equipamentos estava no fim. 

Como resultado, desde o início o Up! não seduziu quem queria um carro zero de entrada e as vendas jamais passaram perto do que a fabricante esperava.

Leia também: VW Polo 1.6 AT some das lojas após vender menos que GTS

O hatch cobrava um preço mais caro por alguns motivos: era um projeto muito moderno, seguro e bem construído para os padrões do segmento em que atuava, além de oferecer um excepcional aproveitamento de espaço. Só que a VW não soube destacar essas qualidades nas primeiras campanhas de lançamento.

As cinco estrelas no teste do Latin NCAP, por exemplo, só foram ser mencionadas em um comercial de televisão quando o modelo já cambaleava nas vendas e dava mostras de que estava rejeitado pelo brasileiro. Tarde demais.

2) Visual que não agradou

Preços salgados e visual diferentão falaram mais alto que o bom nível de segurança e a atualizada plataforma do hatch

Um dos principais memes nas redes sociais é o de que todos os carros da Volkswagen são iguais. Porém, quando a marca trouxe o Up!, com um visual diferente e mais próximo do mercado europeu, os clientes brasileiros o acharam “diferente demais”, mostrando um lado peculiar do nosso mercado. 

Leia também: novo VW Gol e picape Tarok só saem do papel com demissões

O Volkswagen não tinha uma silhueta como a de outros hatches compactos, e como mandava a cartilha do então líder Gol: balanço dianteiro alongado, vincos fortes no capô e nas laterais, vidro do porta-malas em posição diagonal e arestas mais arredondadas. 

Na verdade, o Up! mais parecia um monovolume - basta comparar com o Honda Fit de primeira geração -, com estilo caixotinho, sem frente e nem traseira muito bem definidas, com linhas modernas e limpas, sem traços agressivos. Seu jeito “bom mocinho” demais passou longe de encher os olhos dos brasileiros.

3) Não se acostumou com o Brasil 

Preços salgados e visual diferentão falaram mais alto que o bom nível de segurança e a atualizada plataforma do hatch

O Up! foi um lançamento mundial da Volkswagen e, embora tenha recebido a popular “tropicalização” no Brasil, com direito a entre-eixos, porta-malas e tanque de combustível maiores, além de suspensões mais altas e reforçadas, em detrimento a um nível menor de equipamentos de conforto e segurança, não se adaptou bem às ruas esburacadas e irregulares do Brasil.

De fato, o carro é duro. Todas as imperfeições das vias são sentidas diretamente dentro da cabine por motorista e passageiros, como se a estrutura do veículo e a suspensão não conseguissem absorver tão bem os impactos.

A verdade é que, por ser um veículo pensado diretamente para o mercado europeu, com chapas de aço de alta resistência - que são as principais responsáveis pelo bom desempenho nos testes de impacto -, a torção do monobloco é menor e os chacoalhões dentro da cabine são inevitáveis. 

Isso acabou prejudicando a reputação dele por aqui, evidenciando mais uma das “jabuticabas” do mercado nacional.

Leia também: Kwid encarece e Mobi volta a ser o carro mais barato do Brasil

4) Motor TSI chegou atrasado

Preços salgados e visual diferentão falaram mais alto que o bom nível de segurança e a atualizada plataforma do hatch

Como dito anteriormente, a Volkswagen apresentou o hatch em 2014 apenas com versões MPI 1.0 de 75/82 cv (gasolina/etanol) e 9,7/10,4 kgfm de torque. O famoso motor 1.0 170 TSI de 101/105 cv e 16,8 kgfm, um turboflex, equipou o modelo apenas a partir de julho do ano seguinte. Essa demora fez os motores turboflex de injeção direta cativarem o público errado. 

Em vez de ser opção para que buscava um carro mais espertinho para o dia a dia e até para a estrada, mas com uma boa relação entre desempenho e consumo, tornou-se fetiche apenas no mercado de modificações, com upgrades de potência e alteração nas suspensões, por exemplo. 

Parece besta, mas isso prejudicou a imagem do hatch inclusive no mercado de usados. Afinal, quem tem segurança para comprar um Up! TSI usado que pode ter passado por modificações ou situações de uso mais extremas por parte de seu antigo dono, não é mesmo?

5) Um carro sem irmãos

Preços salgados e visual diferentão falaram mais alto que o bom nível de segurança e a atualizada plataforma do hatch

O Up! realmente foi o projeto da Volkswagen no Brasil que mais se aproximou do mercado europeu, mas isso teve um custo… e um custo alto. Um dos fatores que mais prejudicaram a vida do compacto por aqui foram seus preços.

Leia também: Marcas de carro não estendem garantia na 2ª onda da pandemia

Na tabela de abril, à qual nossa reportagem teve acesso, a versão Xtreme do Up! custava R$ 61.290, bem acima do que seus teóricos rivais diretos, Fiat Mobi e Renault Kwid, cobram em suas versões de topo: R$ 51.390 pelo Mobi Trekking e R$ 53.690 pelo Kwid Outsider.

Quando a Volkswagen lançou o Up! em 2011 na Europa, tínhamos um mercado de hatches ainda em alta. O problema foi replicar o projeto só três anos depois no Brasil, quando o cenário já estava diferente e prestes a ser ainda mais afetado pela invasão dos SUVs, que tomaram conta das vendas.

De lá para cá, os carros de entrada perderam muito apelo e só se justificavam a partir de projetos de custo muito mais baixo, caso do Kwid. E que ainda assim vêm sofrendo para se manter vivos, porque não alcançam um volume satisfatório de vendas. 

O problema é que a VW não tinha essa saída com o Up!: sua plataforma PQ12 não era compartilhada com nenhum outro modelo e o custo de produção e do projeto era elevado. A marca ficou sem margem para reposicioná-lo diante de rivais com preços muito mais em conta.

Além disso, por se tratar de um projeto único e que não compartilha componentes com mais veículos - igual ao que vemos com Gol, Voyage e Saveiro, ou com Polo, Virtus, Nivus e T-Cross -, o seu custo de manutenção fica maior. 

Tirando a parte mecânica, quase tudo no Up! é único: volante, painel, chapas de carroceria, chicotes elétricos… Até um limpador de para-brisa não pode ser adaptado de nenhum outro modelo da VW no país.

Tudo isso eleva o preço das peças e faz o Up! perder apelo no mercado, inclusive no de usados, principalmente para seus irmãos Fox e Gol, que estão na mesma faixa de preço, mas dão menos dor de cabeça na hora de repor um componente.

Você também pode se interessar por:

Os carros de verdade que desmontam como Lego
Renault registra novo Sandero no Brasil, mas com visual “Dacia”
Por que tantas marcas de carro estão mudando o logotipo?
Pedágio: como funciona o pagamento proporcional aos quilômetros rodados


Volkswagen Up!Carros de entradaCarro hatchUp! sai de linhaUp! para de ser fabricadoPorque o Up! saiu de linhaCarros da VolkswagenCarros subcompactos

Comentários