Caminhões autônomos são uma ameaça real à profissão caminhoneiro?

Enquanto categoria se engaja em “cruzada” política no Brasil, setor do transporte de carga dá os primeiros passos para eliminar motoristas
Por Jornalista Convidado
17.09.2021 às 13h:32 • Att. há cerca de cerca de 1 mês
Enquanto categoria se engaja em “cruzada” política no Brasil, setor do transporte de carga dá os primeiros passos para eliminar motoristas

 Por Homero Gottardello

Os caminhoneiros que ameaçaram parar o país na semana passada, exigindo a destituição dos ministros do STF (Supremo Tribunal Federal) e outras pautas igualmente ineptas, ainda não se deram conta de que há uma ameaça verdadeira e infinitamente mais hostil à categoria em curso. 

Trata-se da automação do transporte de cargas, uma revolução que, silenciosamente, já começou a ser posta em prática e que, em breve, vai extinguir dezenas de milhares de postos de trabalho, gerando, na outra ponta do negócio, economia para os empresários, mais segurança e eficiência para os serviços, além de maior retorno para os investidores.

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“Os caminhões autônomos podem significar a extinção de 294 mil empregos só nos Estados Unidos”, é o que diz um relatório divulgado pela UC Bekerley Center for Labor and Education and Working Partnerships, assinado pelo sociólogo Steve Viscelli, da Universidade da Pensilvânia. 

No Brasil, o Laboratório do Futuro, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), faz o mesmíssimo alerta: a automação das funções do motorista pode “desempregar 877 mil caminhoneiros” por aqui.

Você não percebeu, mas a automação já começou

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Obviamente, não se trata de uma mudança que ocorre do dia para a noite, mas enquanto Zé Trovão desvia o foco dos caminhoneiros para questões infrutíferas, a Vale inicia a automação de sua frota no Complexo de Carajás, operando seis novos caminhões autônomos, de um total de 37, com capacidade para 320 toneladas de minério de ferro. 

Ao todo, a empresa investirá US$ 64 milhões, o equivalente a mais de R$ 335 milhões, na modernização. “Os principais ganhos são em segurança, além de uma economia com combustível de 5%”, explica o executivo Paulo Bemfica, que comanda o programa de automação da mineradora. 

Na mina de Brucutu, em Minas Gerais, a frota de 13 caminhões ‘off-road’ foi automatizada em 2016 e, de lá para cá, não houve nenhum acidente. “Primeiro, tiramos os operadores do trabalho de risco, mas também economizamos com pneus, lubrificantes e outros itens de desgaste”, completa Bemfica.

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Como se vê, nas aplicações fora-de-estrada (mineração e agronegócio, por exemplo), os veículos autônomos já são uma realidade, no Brasil, há pelo menos cinco anos. Mas antes que esta tecnologia domine o transporte rodoviário, será preciso regulamentá-la.

Neste sentido, “os países terão de criar legislações específicas que, por enquanto, ainda não existem”, pondera o diretor-presidente (CEO) da Bright Consulting, consultoria estratégica para o segmento automotivo, Paulo Cardamone. 

De qualquer forma, empresas de logística e frotistas estão ansiosos pela popularização desta tecnologia. “Entre os caminhões, a razão para a automação não tem foco no motorista, mas no negócio e na economia que ela pode proporcionar quando se trata de uma frota”, avalia o diretor global de sustentabilidade da Volvo, Niklas Gustafsson.

O secretário geral da Federação Internacional dos Trabalhadores em Transportes (ITF), Stephen Cotton, que conglomera mais de 650 sindicatos nacionais, vem discutindo o assunto com legisladores europeus desde 2018. “Temos todos, trabalhadores, representantes políticos e do capital, de garantir que os benefícios da tecnologia se repercutam equitativamente em toda a sociedade”, defende. 

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“Temos que fazer uma transição e determinar quem vai pagar pela atualização dos trabalhadores para as novas competências que serão demandadas. Basicamente, é um desafio para os legisladores”, acrescenta.

De acordo com o Fórum Internacional do Transporte, da OCDE, a introdução de caminhões autônomos vai reduzir de 50% a 70% o número de motoristas nas empresas do setor, na Europa e nos Estados Unidos, e isso antes de 2030 – portanto, em menos de uma década!

A automação do transporte se dá pela conectividade entre sistemas e, para quem não sabe, os jatos comerciais já conseguem fazer pousos automáticos há três décadas.

“Hoje, as rotas são pré-programadas e, muitas vezes, as alterações do controle de voo são enviadas, diretamente, para o sistema de navegação da aeronave”, pontua o diretor de segurança e operações de voo da Associação Brasileira das Empresas Aéreas (Abear), Ruy Amparo. 

Os paulistanos que não usam metrô talvez não saibam, mas um trecho de 12,8 quilômetros de extensão da linha 4 (Amarela) do Metrô de São Paulo, operado pela ViaQuatro, é totalmente automatizado. Trata-se, inclusive, da única operação “driveless”, ou seja, sem condutor/maquinista, de toda a América Latina.

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Logística com um iPad

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Se existe alguém tão ingênuo a ponto de acreditar que a automação é um modismo e que os caminhoneiros não têm com o que se preocupar, é bom prestar atenção nos números fornecidos pela Pointer by Powerflat Brasil, especializada em gestão inteligente de frotas: 

“Ainda estamos longe de atingir o potencial que a conexão 5G permite, com veículos totalmente autônomos, mas se sabe, claramente, que, em média, uma frota [autônoma] gasta menos 26% com combustível, polui também 26% menos, reduz os custos de manutenção da ordem de 16% e a qualidade de direção melhora em pelo menos 400%”, enumera o diretor-presidente (CEO) da empresa, Daniel Schanider. 

“Isso tudo com os recursos de gestão atuais, em que a tecnologia apenas orienta o caminhoneiro e, se necessário, corrige seu modo de condução”, frisa o executivo. Agora, imagine quando todo o transporte for automatizado… Frotistas, investidores e gigantes do setor de logística não vão querer saber de caminhoneiros nunca mais!

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Se na Europa e nos Estados Unidos há uma importante discussão de classe sobre inteligência artificial, algoritmos e realidade virtual em pauta, a desídia de sempre é que dá o tom no Brasil, deixando para amanhã aquilo que poderia ser feito hoje. 

De qualquer forma, Paulo Cardamone, da Bright Consulting, acha que ainda vai levar tempo para esta revolução se concretizar por aqui. “No agronegócio, por exemplo, que é um ambiente controlado, eles – os veículos autônomos – serão uma realidade, mas nas estradas ainda haverá necessidade de motoristas”, prevê. 

De acordo com ele, para caminhões com o nível 5 de automação (o mais alto de todos) ganharem as estradas, todo um pacote regulatório terá que ser parido. “No mais, a indústria nacional não tem volume para fabricar e colocar nas rodovias 1,5 milhão de veículos autônomos tão rapidamente. Então, os caminhoneiros podem ficar sossegados”, projeta Cardamone.

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Bom, mesmo que demore mais para acontecer por aqui do que no restante do mundo, o motorista de caminhão, da forma que o conhecemos hoje, vai deixar de existir mais rápido do que se imagina. 

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Para o seu lugar, serão recrutados profissionais que terão conhecimentos avançados de logística e o completo domínio de softwares que vão comandar todos os parâmetros de coleta, transporte e entrega de cargas. 

“Não acho que eles – os caminhoneiros – tenham condição de fazer logística com um iPad na mão”, declarou o executivo de estratégia de comunicação e gestão de crises da MAN Truck & Bus, Manual Hiermeyer. 

Uma coisa parece bastante clara: a qualificação de um Zé Trovão, por exemplo, não será suficiente para garantir ao autointitulado líder nacional da categoria nem mesmo o posto de ajudante em um centro de assistência e reparo ou, quiçá, numa borracharia.

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