VW Santana CS derivado do Passat compensa falta de luxo com porte familiar
Versão de entrada do sedan médio deixava de lado alguns itens e acabamento mais refinado para entregar um conjunto honesto e espaço interno
O Volkswagen Santana nasceu em 1984 como o primeiro sedã médio da marca no Brasil e, desde o início, deixou claro que sua missão era ir além de simplesmente ocupar um novo degrau de mercado. Derivado da segunda geração do Passat europeu, o Santana chegava com porte, entre-eixos generoso, rodar confortável e uma postura que, para os padrões nacionais da época, flertava com o conceito de carro executivo. Em um país que ainda media luxo muito mais pelo tamanho do que pelos equipamentos, ele rapidamente se impôs como referência.
Dentro dessa lógica, a versão CS cumpria um papel muito específico, e muitas vezes mal compreendido hoje. Não era a mais simples da gama, tampouco a mais sofisticada. O CS representava o Santana racional, pensado para quem queria espaço, conforto estrutural e boa mecânica, sem pagar pela ornamentação visual ou pelos excessos de versões mais caras.
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Externamente, o CS se distinguia exatamente pela percepção de sobriedade. Era desprovido de frisos laterais na carroceria, dispensava cromados supérfluos e apostava em uma aparência limpa, quase corporativa, fosse com 2 ou 4 portas. As rodas eram sempre de aço estampado, acompanhadas de calotas integrais, calçadas com pneus 185/70 R13, conjunto que privilegiava conforto de rodagem e baixo custo de manutenção, em perfeita sintonia com a proposta do modelo.
Por dentro, a racionalidade seguia a mesma lógica. A forração interna era compartilhada com a linha LS de Gol, Voyage e Parati, utilizando tecidos mais simples, porém duráveis e bem montados. O painel mantinha o desenho moderno e funcional da família Santana, com excelente ergonomia, comandos bem posicionados e leitura clara dos instrumentos. Nada de exageros — tudo estava onde deveria estar.
Mesmo assim, o CS não era um carro espartano. De série, trazia itens considerados importantes para o padrão da época, como ar quente, ventilação eficiente, limpador e lavador do para-brisa, desembaçador traseiro e acabamento interno honesto. A lista de opcionais era ampla e estratégica: ar-condicionado, direção hidráulica, vidros elétricos, travas elétricas, retrovisores com ajuste interno, rádio AM/FM, rodas de liga-leve (as mesmas da versão CD) e até câmbio automático de três marchas podiam ser adicionados através de pedidos especiais, permitindo que o CS fosse configurado sob medida para diferentes perfis de uso, do executivo ao taxista premium.
Sob o capô, o Santana CS utilizava o conhecido motor VW 1.8 carburado que antecedeu à linha AP. Na gasolina, entregava 86 cv a 5.000 rpm e 14,6 kgfm de torque a 2.600 rpm. Quando abastecido com etanol, os números subiam para 92 cv a 5.000 rpm e 14,9 kgfm de torque a 2.600 rpm. Não era um esportivo, mas oferecia desempenho condizente com o porte do sedã, especialmente em uso rodoviário, onde o torque em baixas rotações fazia diferença.
A grande virada técnica veio em 1985, quando a linha 1986 passou a adotar o motor AP-800. Com pistões redesenhados e bielas mais longas e leves, o conjunto ganhava mais fôlego em rotações médias. Com etanol, o AP-800 rendia 94 cv a 5.000 rpm e 15,2 kgfm a 3.400 rpm; com gasolina, eram 87 cv a 5.000 rpm e 14,9 kgfm a 3.400 rpm. A evolução era clara, ainda que discreta — exatamente como pedia a filosofia do CS.
Para acompanhar essa mudança, o câmbio também foi revisto. A partir de 1986, o Santana CS passou a adotar relações mais curtas, inspiradas no câmbio do Gol GT, privilegiando aceleração e retomadas. Na prática, o sedã se tornava mais ágil no trânsito urbano e menos apático em saídas de semáforo, ainda que isso elevasse um pouco o regime de rotações em estrada. Era um Santana mais esperto, sem perder sua essência confortável.
Essa combinação de motor atualizado e câmbio mais curto tornava o CS um carro equilibrado para o uso real do brasileiro dos anos 80 — confortável, robusto, previsível e fácil de conviver. Ele não buscava impressionar, mas entregava exatamente o que prometia.
O encerramento da sigla CS não aconteceu por falha de conceito, mas por estratégia de mercado. Em meio aos sucessivos planos econômicos do governo federal e às tentativas de reorganização da indústria nacional, as montadoras passaram a revisar nomenclaturas e versões como forma de “apresentar novidades” sem, necessariamente, criar produtos. Era uma resposta direta à inflação elevada, às mudanças constantes nas regras do jogo e à necessidade de manter o consumidor atento.
Assim, a partir da linha 1987, o Santana CS dava lugar ao Santana CL. Na prática, pouco mudava. A proposta seguia a mesma, o pacote de opcionais era equivalente e a mecânica permanecia idêntica. O que mudava era o nome, agora alinhado à nova padronização da Volkswagen, que passava a organizar sua gama em CL, GL e CD de forma mais clara, além de um face-lift sutil com novos para-choques e pequenos detalhes de acabamento.
O CS, portanto, não desaparecia, ele apenas mudava de crachá. E talvez isso seja o maior elogio possível: um carro tão bem resolvido que não precisou ser reinventado, apenas rebatizado. O Santana CS cumpriu exatamente o papel que a Volkswagen precisava naquele momento histórico. E ao se transformar em CL, seguiu fazendo o mesmo, com a mesma engenharia, a mesma proposta e a mesma dignidade de quem ajudou a definir o que era um sedã médio no Brasil em que o luxo era o porte, e não seus opcionais.
Este texto contém análises e opiniões pessoais do colunista e não reflete, necessariamente, a opinião da Mobiauto.
"Leonardo França é formado em gestão de pessoas, tem pós-graduação em comunicação e MKT e vive o jornalismo desde a adolescência. Atua como Consultor Organizacional na FS-França Serviços, e há 21 anos, também como consultor automotivo, ajudando pessoas a comprar carros em ótimo estado e de maneira racional. Tem por missão levar a informação de forma simples e didática. É criador do canal Autos Originais e colaborador em outras mídias de comunicação."
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