Receita do Ford EcoSport transformou o mercado brasileiro em enxurrada de SUVs?
Modelo criou tendência que atualmente domina o gosto do mercado nacional
O ano era 2002. O inédito Ford EcoSport fazia sua estreia triunfal e era a grande atração no Salão Internacional do Automóvel de São Paulo daquela edição. O frisson foi tanto que até uma Ferrari Enzo ficou em segundo plano à época. Todos queriam ver (e saber) do SUV que só seria lançado no mercado nacional no ano seguinte. Talvez o que nem o executivo do mais alto escalão da marca norte-americana imaginasse é que o jipinho, vestido em uma chamativa cor amarela no evento automotivo, traçaria uma história de sucesso no Brasil.
Mas foi a Ford que criou uma tendência por aqui? O experiente consultor automotivo Milad Kalume Neto responde. "A Ford não criou esta demanda ou tendência, mas ela foi muito esperta em fazer uma leitura correta do mercado e lançar um produto correto para o Brasil", diz. "As ações de marketing foram muito eficientes e que traduziam uma vida na cidade e no campo com um estilo aventureiro, ambientalista e urbano", completa. A fabricante também levou para a matriz à época um estudo com opiniões de consumidores em que todos, homens e mulheres, eram unânimes na aspiração a um SUV.
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O consultor contextualiza dizendo que o Ford EcoSport foi a porta de entrada no mercado brasileiro, mas que um movimento mundial já se iniciava. "O advento dos SUVs a nível mundial vem aliado a queda das vendas e interesse nas peruas. As fabricantes entenderam que o segmento das SUVs trazia maior valor agregado em comparação com as peruas - até hoje, diga-se de passagem", analisa Kalume Neto.
Junto ao maior valor agregado na época, outras características chamaram atenção do público - e que permanecem em linha até os dias atuais. "As próprias características de produto que eram mais altos, traziam uma percepção de maior segurança, maior amplitude visual e, claro, status chamaram a atenção do consumidor", explica. No contexto econômico, o brasileiro passava, principalmente o da classe média, por um aumento do poder aquisitivo facilitando a compra de veículos automotores. Entre 2003 e 2011, pore exemplo, o EcoSport mudou, se adaptou, virou flex, 4x4, opção de câmbio automático, novas motorizações, reestilizações e um amplo domínio durante uma década.
Produzido em Camaçari (BA) ao lado do Fiesta, o EcoSport nadou de braçada no mercado brasileiro - as marcas estavam focadas em minivans, SUVs médios posicionados a preços mais elevados ou ainda SUVs grandes destinados ao mercado de luxo. As rivais só foram reagir muitos anos depois, quando o Eco já ultrapassava as 500 mil unidades produzidas. Em 2011, surgiu o Renault Duster. O rústico SUV francês fez uma estreia e tanto e superou o já veterano EcoSport em seu primeiro ano cheio de vendas, 2012, com 46.983 unidades contra 38.282 do Ford. Um ano depois, no entanto, o EcoSport deu o troco e registrou quase 70 mil exemplares, enquanto o Duster ficou na casa dos 50 mil.
As montadoras concorrentes demoraram para reagir. Além do Duster oito anos depois do Eco, uma leva robusta de SUVs só chegou a partir de 2013/2014, como Chevrolet Tracker de segunda geração, Jeep Renegade, Nissan Kicks e Honda HR-V. “A maioria das marcas permaneceu com suas estratégias de produto focada em sedãs, hatches, picapes e algumas até em peruas que já estavam perdendo espaço a nível global”, explica o consultor. “A Ford por sua vez conseguiu estabelecer uma grande barreira informal de entrada de novos concorrentes com o EcoSport estabelecendo preços competitivos, ampla gama de produtos que abrangiam veículos de entrada até veículos completos que incluíam versões 4x4 e ampla penetração em território nacional com sua rede de concessionários”, completa.
Outra sacada foi ligação com um carro já existente - geralmente um hatch. Assim como o EcoSport, derivado do então Fiesta, as montadoras seguem essa tendência até os dias atuais. Os principais SUVs compactos vendidos atualmente no Brasil tem origem de um modelo compacto. Os exemplos são diversos: desde Onix/Tracker, passando por Polo/Nivus/Tera/T-Cross, 208/2008 até chegar em C3/C3 Aircross/Basalt ou Argo/Pulse. Mas isso tem uma motivação econômica. "A otimização de custos numa fabricante é algo essencial para a sobrevivência, então o compartilhamento da mesma plataforma para diversos projetos é uma forma de redução de custos importante. quanto menos adaptação o projeto exija, mais competitivo o produto será ao final", conclui Kalume Neto.
Fato é que o tempo disse que a Ford estava certa. Nos números atuais, do 1º semestre de 2025 os SUVs responderam por 53,3% das vendas do mercado brasileiro de veículos. Ou seja, de dez modelos comercializados, quase seis são utilitários. No ano passado, por exemplo, o segmento fechou com 47,5% de participação. O EcoSport, no entanto, sucumbiu a esse mesmo tempo. Perdeu seu protagonismo na categoria até sua produção encerrada em 2022 quando a marca também decidiu fechar fábricas e encerrar a produção no Brasil. “O EcoSport perdeu seu reinado apenas pelo tempo. Seu projeto ficou ultrapassado e a decisão da Ford em deixar a produção no Brasil eliminou qualquer chance de desenvolvimento maior”, finaliza Milad Kalume Neto.
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