Carros elétricos já desvalorizam menos que os a combustão

Estudo mostra que eles também já estão igualando o jogo em nível de satisfação e custo de propriedade

HG
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31.01.2023 às 11:00 • Atualizado em 29.05.2024
Estudo mostra que eles também já estão igualando o jogo em nível de satisfação e custo de propriedade

Uma das expressões do amor que o brasileiro tem por automóveis é a teimosia, a insistência em manter viva uma tecnologia que foi ultrapassada sob a justificativa da paixão. No mundo do pragmatismo, nominalmente Ásia, Europa e Estados Unidos, novas leis e um pacote equivalente a R$ 4 trilhões aceleram a virada de eletromobilidade sem romantismo. 

O mais recente estudo da consultoria JD Power, o EV Index (que analisa nada menos que 26 conjuntos de dados), revela que, nos EUA, o tanto o custo de propriedade de um modelo 100% elétrico, quanto a funcionalidade deste tipo de veículo já igualaram os índices dos automóveis convencionais, equipados com motor a combustão. 

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“Os veículos elétricos são um segmento novo, complexo e dinâmico, mas que têm interdependências em relação aos nichos tradicionais. Essas interdependências é que ditam o momento em que o consumidor fará a transição de uma tecnologia para outra”, avalia a consultora Elizabeth Krear, vice-presidente do instituto.

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O custo de propriedade é calculado a partir do valor de aquisição e, neste quesito, os automóveis convencionais ainda levam vantagem sobre os EVs, já que têm preços menores.

Em contrapartida, os gastos fixos dos EVs, que incluem desde tributos, seguro, manutenção e combustível, são menores e, neste quesito, eles invertem a desvantagem, já que têm isenção tributária, manutenção mais baixa, eficiência de até 85% na conversão energética – contra 40% dos motores a combustão – e eletricidade mais barata. 

“Em um EV [veículo elétrico], cerca de 59% a 62% da energia da rede elétrica faz girar as rodas, enquanto os motores a combustão convertem apenas 17%, no máximo 21%, da energia química da gasolina para mover o carro”, pontua o diretor e fundador do Conselho de Defesa dos Recursos Naturais (NRDC), organização sem fins lucrativos com sede em Nova York, John Adams. 

“Isso significa que um veículo elétrico é aproximadamente três vezes mais eficiente e isso tem impacto direto no bolso”, completa.

Mas nem tudo são flores e das seis categorias ranqueadas pelo “EV Index”, quatro ainda têm índices bem inferiores, como “infraestrutura de carregamento” e – acredite! – “interesse do consumidor”. 

“Há um longo caminho a ser percorrido antes de os EVs estarem em pé de igualdade com os modelos convencionais. Vemos, claramente, uma dicotomia na transição para trens de força totalmente elétricos, mesmo quando as montadoras globais investem trilhões em lançamentos de todas as categorias”, avalia Elizabeth Krear, da JD Power.

O estudo feito nos EUA aponta que os motoristas norte-americanos que compram EVs raramente voltam para carro com motor de combustão e a maioria os considera “acessíveis”, ao ponderar seus custos fixos, bem como seu valor de revenda. 

No último mês de outubro, a desvalorização de um modelo 100% elétrico, nos Estados Unidos, foi menor que a de um modelo convencional, pela primeira vez”, comenta o diretor de dados do Black Book, Alex Yurchenko. 

“Nossa estimativa é que um modelo convencional comprado em outubro de 2022 manterá um valor residual de 61% no mesmo mês de 2025, enquanto um EV poderá chegar a 65%. Os contratos de leasing de EVs também antecipam uma retenção de valor comparável aos modelos a gasolina”, diz.

Por outro lado, o crescimento da frota circulante de EVs vem criando gargalos de infraestrutura. Isso porque o crescimento das redes de recarga está aquém do aumento nas vendas dos modelos elétricos, frustrando muitos motoristas que, de repente, não conseguem localizar um ponto para recarregamento ou encontram um ocupado ou, pior, inoperante. 

“Ter a capacidade de controlar todas essas interdependências é fundamental”, lembra avalia Elizabeth Krear, da JD Power.

Vendas de elétricos vão quadruplicar

Para resolver este gargalo, a Comissão de Energia da Califórnia aprovou, na virada de 2023, um plano de investimento de US$ 2,9 bilhões (o equivalente a R$ 15 bilhões) para acelerar as metas de uma rede com 90 mil pontos de recarga e, também, para reabastecimento de hidrogênio. Lá, como na China, é o Estado e não a iniciativa privada que vai financiar esta infraestrutura. 

Já em nível federal, um projeto de lei apresentado em 2022 prevê gastos de US$ 5 bilhões (o equivalente a quase R$ 26 bilhões) para ajudar os Estados a instalarem carregadores ao longo das rodovias interestaduais, nos próximos cinco anos. 

Em setembro, o Departamento de Transportes de lá já havia aprovado planos para todas as unidades federativas, cobrindo cerca de 75 mil milhas (o equivalente a 120 mil quilômetros) de rodovias.

O novo “EV Index” será atualizado e divulgado mensalmente, acompanhando a virada da eletromobilidade, na terra do Tio Sam. 

“Ao considerar o custo total de propriedade, ao longo de cinco anos, os EVs estão quase empatados com os modelos a gasolina e, em alguns casos, eles serão mais baratos”, destaca o diretor de insights, mercado e soluções de negócios da Cox Automotive, que fornece soluções em marketing digital, varejo, atacado e finanças para o setor automotivo, Jeremy Robb.

“Some isso ao fato de, hoje, o Mercedes-Benz EQS e o Tesla Model Y já liderarem a pontuação no quesito ‘satisfação do cliente’ do segmento premium, ao mesmo tempo em que o Kia EV6 também aparece em primeiro entre as marcas populares. Os clientes se impressionam com o silêncio, a suavidade e a força, mesmo reclamando da autonomia limitada”, analisa.

O grande problema é que esta questão infraestrutural parece estar piorando, aponta o estudo. É que, à medida em que mais pessoas compram veículos elétricos, aumenta a demanda por estações de carregamento, que ainda não são tão confiáveis quanto as bombas de combustíveis, até porque não há tanta fiscalização sobre a rede. 

Mais de 20% dos donos de EVs afirmaram à JD Power que, pelo menos uma vez, não conseguiram usar um carregador público devido a manutenção deficiente, falhas de software ou pelo fato de o equipamento estar danificado. Entre os Estados dos EUA, o Texas teve a pior pontuação neste quesito. 

“Apesar das dificuldades potenciais em algumas áreas, nossa previsão é que a participação dos EVs aumentará rapidamente, até 2025, e deve quadruplicar para cerca de um a cada cinco modelos zero-quilômetros vendidos no país”, prevê a consultora Elizabeth Krear.

De qualquer forma, novas tecnologias prometem estender o alcance dos EVs, o que minimizaria os inconvenientes com a rede de recarga. A McLaren Applied, por exemplo, desenvolveu um inversor para a Fórmula 1 que, em breve, vai migrar para os modelos de grande produção. 

“O inversor IPG5, de carboneto de silício, pesa apenas 5,5 quilos e pode aumentar a autonomia em 7%”, conta o presidente-executivo (CEO) da subsidiária de engenharia, Nick Fry. 

“Este é um momento de grandes oportunidades e há 20 grandes marcas interessadas em nosso produto. Esta tecnologia já estará embarcada em alguns modelos de prestígio, em 2025, e estamos fechando a novos contratos”, acrescenta o executivo.

Como se vê, a tendência de eletrificação é rápida, pelo menos no Primeiro Mundo, onde as vendas de EVs usados subiram até 43%, só no último ano. 

“Nossos vendedores e o pessoal de serviços vem sendo educado para a virada da eletromobilidade. Nossa expectativa para o futuro é de que muitos clientes vão migram para modelos elétricos usados e digo isso porque, hoje, vendemos muito rapidamente qualquer EV de nossos estoques”, aponta o diretor de operações do grupo norte-americano #1 Cochran, um dos maiores revendedores de usados dos EUA, Danny Papakalos. 

“O caminho traçado pelas montadoras também obriga o mercado de usados a se preparar para a eletrificação e, diante da procura atual, vejo um futuro promissor para este segmento. Até 2030, nossas lojas estarão repletas de opções”.

Ou seja, estamos ficando para trás até mesmo quando se trata de um automóvel de segunda mão...

Imagens: Shutterstock

Este texto contém análises e opiniões pessoais do colunista e não reflete, necessariamente, a opinião da Mobiauto.

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