Teste: atravessamos o Pantanal de Ram Dakota para ver do que a picape é capaz
Caminhonete estreia em março em duas versões para encarar Toyota Hilux, Chevrolet S10 e Ford Ranger
Pantanal, 1.200 km de estrada, o retorno de uma nomenclatura icônica sob uma marca especialista em picapes e a entrada no importante segmento de caminhonetes médias, que emplaca quase 150 mil unidades por ano. Como não criar expectativas em torno da Dakota, o novo modelo da Ram (e não mais Dodge) que chega ao Brasil para brigar com Toyota Hilux, Ford Ranger e Chevrolet S10? Mas será que a picape apenas se vale do nome famoso ou realmente tem características para encarar as rivais?
A caminhonete está em pré-venda desde o último dia 20 de janeiro em duas versões: Warlock (R$ 289.990) e Laramie (R$ 309.990). A diferença entre ambas é basicamente estética. Enquanto a de "entrada" tem um caráter mais aventureiro com pneus de uso misto, santantônio e visual escurecido, a mais cara tem uma pegada mais urbana, cheia de cromados e com acabamento interior claro para dar um ar mais, digamos, premium.
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Fabricada na Argentina, a Dakota tem um lote inicial no Brasil de 750 unidades com estes preços promocionais - sendo 460 da Warlock e 290 da Laramie. Os exemplares ainda não esgotaram, mas estão perto de acabar, de acordo com a Ram. A marca não informou qual será o valor quando as encomendas acabarem. As primeiras entregas, por sua vez, acontecem em março. O que a fabricante deixou no ar é a chegada de mais opções. É muito provável que a Big Horn estreie em breve como a versão mais em conta e voltada ao trabalho pesado.
A Dakota resgata a alcunha do modelo homônimo da Dodge vendido no Brasil entre o final dos anos 1990 e início dos anos 2000. Mas tenta ser mais que um rebadge da Fiat Titano. Isso porque a picape da Ram também é fabricada em solo argentino e usa o conjunto mecânico igual ao da Fiat. Ou seja, sob o capô estão os quatro cilindros 2.2 turbodiesel Multijet II de 200 cv e 45,9 kgfm de torque - que também já equipa outros carros da Stellantis, como Fiat Toro, Ram Rampage e Jeep Commander.
Vale lembrar que a própria Titano já é uma adaptação da chinesa Changan Kaicene F70. Inicialmente o modelo seria a picape média da Peugeot, chamada de Landtrek, mas os planos da Stellantis mudaram. A caminhonete oriental ainda deu origem a Ram 1200 em outros mercados, como o México. A Dakota, então, é o quarto capítulo de toda essa história.
E essa herança fica bem clara no interior. O desenho do console, o painel de instrumentos com tela digital de 7" integrado ao multimídia com visor de 12,3", maçanetas, botões do sistema de ar-condicionado e até o seletor giratório para escolher os modos de tração que trazem duas "asas" (uma do sistema de manutenção de faixa e a outra do bloqueio do diferencial) são idênticos à picape chinesa.
Isso não é um demérito e a Ram não é a primeira marca que aproveita um projeto para reduzir custos. A própria Rampage é basicamente uma Toro com outra carroceria, mas ao menos é a mais potente entre as intermediárias e tem um acabamento primoroso na versão topo de linha R/T.
Em termos de dimensões, a Dakota tem 5,36 metros de comprimento e 3,18 m de entre-eixos. As medidas a colocam à frente de Hilux e S10, mas atrás da Ranger. Já a capacidade de carga é de 1.020 kg, bem na média do segmento. A caçamba, por sua vez, leva 1.210 litros, uma boa medida que a coloca entre as primeiras posições nesse quesito - perdendo para Ranger, Amarok e a chinesa Foton Tunland. A Ram ainda reboca até 3.500 kg.
Entre jacarés e muita terra
O test-drive pelo Mato Grosso do Sul foi extenso. Foram mais de 1.200 km percorrendo as cidades de Campo Grande, Corumbá e Bonito. E o primeiro detalhe que chamou atenção da picape não foi o tão falado acabamento. Foi o isolamento. Os motores movidos a diesel têm um nível de ruído e vibração característicos.
Mas nada abalou a cabine da Dakota. Em ponto morto ou parada no sinal, a caminhonete mostrou um nível de conforto acústico que não é muito comum nesse segmento. Bancos, volante e painel em nenhum momento sofreram com qualquer tipo de tremor inerente ao 2.2 turbodiesel.
O trajeto misturou asfalto e centenas de quilômetros de terra, mas nenhum piso de lama, irregular ou completamente acidentado exigiu que colocássemos a Dakota em tração reduzida, por exemplo.
Apesar de compartilhar diversos componentes com a Titano, a Ram recalibrou a suspensão, câmbio e direção. E é inegável: a Ram é mais dinâmica que a Fiat.
Nesse ponto chama atenção a facilidade de condução e a versatilidade da Dakota. A caminhonete encarou todos os terrenos com extrema tranquilidade. Alguns chacoalhões aqui e ali, mas nada que comprometesse a segurança.
O curso do amortecedor também evita que movimente longitudinalmente a traseira como outros modelos, o que causa um desconforto para quem vai atrás. A direção tem um peso correto para transmitir boas respostas para quem dirige e ainda é possível colocar uma certo mais leve ou mais peso por meio de comandos na central multimídia.
No asfalto, os pneus transmitem todas as saliências e reentrâncias do piso para o volante e bancos, o que incomoda um pouco. Já no trânsito da capital Campo Grande (MS), a Dakota estaria parecida com um carro de passeio - ou com uma Toro - se não fossem as dimensões avantajadas, claro. O convívio é bem fácil para se manter na faixa, fazer curvas ou encarar o anda e para.
Só para efetuar manobras que o motorista pode passar por apuros porque, assim como a Toro e a Rampage, a Dakota também não tem o famoso “jogo”. Mas isso não será problema para o habitat da picape em grandes fazendas ou vastos campos.
Já o 2.2 diesel de 200 cv e 45,9 kgfm tem fôlego e disposição, mas não espere acelerações e retomadas robustas - especialmente para sair de inércia ou em baixas velocidades. Apesar do torque ser entregue a 1.500 rpm, a entrega é linear e progressiva. Com o ponteiro do velocímetro mais vertical, a sensação melhora e as ultrapassagens ficam mais fáceis.
O câmbio automático de oito marchas executa bem o seu trabalho. Está bem escalonado, sem buracos e tenta aproveitar toda a pujança. Em situações de quick down, no entanto, a transmissão pode ‘pensar’ durante uma fração de segundo a mais e hesitar, mas logo entende a situação, desce as marchas e a caminhonete embala.
Não poderia deixar de falar, claro, do acabamento. A Ram colocou materiais melhores na Dakota, partes emborrachadas no console, painel e portas. A versão mais cara, Laramie, ainda traz um tom marrom para os bancos de couro legítimo e outras partes do interior que deixam a picape com um ar mais requintado. O volante de base reta tem a parte central plástica, mas a Ram colocou falsas costuras para dar a entender que ali também é revestido de couro. Não precisava.
Talvez em comparação com as rivais tradicionais ela esteja um degrau acima. A Rampage, no entanto, de uma categoria abaixo e quase R$ 20 mil mais barata, entrega uma finalização que talvez seja referência entre todas as picapes. Se quisermos ficar dentro das médias, a recém-lançada Tunland é também um bom exemplo de acabamento refinado.
Qual o potêncial da Ram Dakota?
O mercado de picapes no Brasil é gigante, com uma fatia de quase 20% do total. Ou seja, meio milhão de carros. O segmento de caminhonetes médias representa 6% dentro desse montante - cerca de 130 mil exemplares.
Por isso esperava-se mais da Dakota para conquistar, especialmente, o agro. Ainda mais com as companheiras de linha, como 1500, 2500 e 3500. Porém, a picape não é mais a potente, não é a mais rápida, não é a que tem mais torque e não é a que carrega mais peso do segmento.
O tradicional nome pode aspirar uma briga com Hilux, Ranger e S10 pelas primeiras colocações da categoria. A realidade ou os números de venda, por sua vez, devem colocar a caminhonete no segundo grupo disputando posições com Mitsubishi Triton, Nissan Frontier e com a própria irmã Titano.
Ram Dakota Laramie/Warlok – Ficha técnica
Motor: 2.2, dianteiro, longitudinal, quatro cilindros em linha, turbo, diesel, flex, injeção indireta
Taxa de compressão: 15,7:1
Potência: 200 cv a 3.500 rpm
Torque: 45, 9 kgfm (G/E) a 1.500 rpm
Câmbio: automático, 8 marchas
Tração: dianteira e 4x4 sobre demanda
0 a 100 km/h: 9,9 segundos
Velocidade máxima: 180 km/h
Consumo Inmetro:
Urbano: 9,7 km/l
Estrada: 10,8 km/l
Dimensões e capacidades: 5.357 mm comprimento, 3.180 mm entre-eixos, 1.965 mm largura, 1.873 mm altura, 1.210 litros de porta-malas, capacidade de carga de 1.020 kg, 80 litros do tanque de combustível, 2.150 kg de peso em ordem de marcha.
Dados técnicos: direção elétrica; independente dupla A(dianteira) e eixo rígido com feixe de mola (traseira); freios a discos ventilados com pinça flutuante (dianteira) e disco ventilado com pinça flutuante (traseira); diâmetro de giro, 14,1 m; vão livre do solo, 229 mm; ângulo de ataque, 27,3°; ângulo de saída, 26,7°; ângulo de rampa 24,1°; pneus 265/60 R18 (Laramie) e 265/65 R17 de uso misto (Warlock).
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