Pegue essa dica: Vá para estrada com seu pai ou seu filho
Seja como for, uma simples viagem ou passeio podem significar um momento inesquecível
Enquanto redigia a coluna da semana passada, em que relembrava das motos com motores 4 cilindros que tive, revivi uma passagem que mexeu profundamente com o coraçãozinho aqui: o dia em que fiz uma viagem de moto com o meu pai – ele faleceu há pouco mais de 7 anos.
O Edson foi o responsável por tudo o que me transformei. Veio de Sorocaba (SP) para São Paulo (SP) no início dos anos 60 para ser mecânico dos motores Pratt & Whitney dos DC-3 da VASP. Quando eu nasci, em 1969, ele já havia se transferido para a área de Qualidade da Hyster, fabricante de empilhadeiras e guindastes. Era o cara que gostava (e mexia) com tudo o que tinha motor.
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Herdei exatamente esse mesmo traço, se bem que o Edson ia além. Sabia também pilotar monomotores – meu avô havia sido um dos fundadores do Aero Clube de Sorocaba. Voei dezenas de vezes quando era criança nos Paulistinhas, nos Piper´s, nos Cessna´s... Só que ele voou muito mais do que eu já adulto e aprendeu a pilotar apenas “olhando”. Eu adoraria, mas não tive chance. Ah, e ele também tinha arrais, mas aí, confesso, sou eu que nunca achei graça nesse troço de motor de popa.
De tudo o que tem motor, barco é a única coisa que eu não me interesso. Tenho na minha lista de coisas guiadas: carro, moto, triciclo, quadriciclo, moto aquática, snow mobile, Gurgel BR-800, Chevette Junior, caminhão (de 2 a 7 eixos), ônibus, bobcat, empilhadeira, guindaste e trator. E ele me inspirou.
Falemos de carros e motos. Conforme mencionei no início, a lembrança da viagem de moto veio de uma que fizemos justamente de São Paulo a Sorocaba. Ele pegou a minha moto (uma Yamaha XJ600 Diversion e eu estava com uma Yamaha V-Max 1200, fazendo um teste), lá em meados dos anos 90.
Nenhum dos dois fez nenhuma graça nos pouco mais de 100 km que separam as duas cidades. Andamos juntos. Demos uma outra esticadinha, mas nada intempestivo. Até trocamos na volta, quando caiu um temporal na Rodovia Castello Branco. A XJ600 era uma 4-cil em linha com entrega bem suave de potência (72 cv), o que já não ocorria com a endiabrada V-Max, com seu V4 de 100 cv e transmissão final por eixo-cardã.
E aqui residia o problema. Sem controle de tração, qualquer triscadinha a mais no acelerador, somada a um eventual filme de água na pista, mais o efeito do coice lateral gerado pelo cardã (o virabrequim gira no mesmo sentido da roda e tende a “torcer” o chassi, provocando o destracionamento)... e o pneu perderia aderência. Como ela pesava mais de 260 kg, a operação tinha que ser bem técnica para pilotá-la na chuva. E o Edson tirou de letra. Pudera. O cara tinha aprendido a pilotar motos em uma Jawa dos anos 40... Se não sabe o que é, dá um Google – e cuidado para não se assustar. É um horror. Ora, quem aprende a guiar num treco daquele, tira de letra qualquer motocicleta moderna.
A precisão me chamou a atenção no estilo de pilotagem dele. Isso se repetia nos carros, algo que acompanhei bem mais, inclusive. Meu pai era um exímio motorista de Kombi, por exemplo. Entendidos entenderão: guiar Kombi, ou andar rápido de Kombi, é diferente de guiar qualquer outra coisa. E essa precisão, que a gente pode chamar de habilidade, talento ou paixão, também aparecia na hora de ajustar um governor de uma empilhadeira, trocar as lonas de freio de um caminhão ou simplesmente acertar a carburação dupla do nosso bugue Kadron 1973, com motor 1700. E ele fazia de “ouvido”.
Pena ter sido a única viagem que fizemos de moto. Compensamos, porém, nos carros. Viajamos para vários cantos do país, tanto em carros separados, orientando um ao outro nas estradas de mão dupla, ou no mesmo carro, onde sempre saía um tremendo pau para ver quem guiava por mais tempo.
Fomos para o sul do país, logo que eu tirei minha habilitação, em janeiro de 1988, em uma viagem de família. Ele foi com minha mãe no Monza 1.8 e eu num Voyage LS (com câmbio longo), com minha irmã e dois agregados. A BR-116 não era duplicada entre São Paulo e Curitiba. E era bem perigosa. Ele ia na frente, fazia as ultrapassagens e sinalizava se eu podia realizar a minha ou não, considerando, inclusive, o fato de o AP-600 não ter os mesmos dotes de desempenho que o Família 2 da GM.
Parece papo de doidinho, mas fazíamos isso, e dava super certo. Nenhum susto em toda a viagem, porque o cara era f... Eu ia na dele, apenas isso. Às vezes, ficava propositalmente pra trás para contornar umas curvas mais rápidas, mas, nas paradas, na hora de abastecer, ele olhava o ombro do pneu, via o nome “Pirelli P44” desgastado e me dava um sonoro esporro...rs. Sim. Ele sabia o modo como eu estava guiando apenas olhando para o ombro dos pneus.
Aprendi muito, claro. Passei, anos depois, a fazer testes de carros, onde os papéis se inverteram e comecei até a ensiná-lo algumas coisas, como no dia em que fiz o comparativo de 22 carros 1.0 rodando por 24 horas seguidas no Autódromo de Interlagos. À essa altura, além de fazer testes de pista, já havia participado de corridas e sabia andar no traçado do circuito. O Edson andava rápido, mas nunca tinha pilotado no Autódromo. Logo em um dos primeiros turnos, fizemos uma parada nos boxes para trocar os carros e saímos, por coincidência, juntos. Eu de Palio 16V e ele de Ford Ka, que andavam praticamente na mesma toada. Ele grudou atrás de mim para aprender as tomadas de curvas, os pontos de frenagem, as tangências das curvas. E ali ficou por 1h30, colado no meu carro. Imagine o orgulho? Eu estava ensinando algo, além de ter proporcionado a ele o sonho de pilotar dentro de Interlagos. Memorável.
Também lembro de outra viagem que fizemos, desta vez para o Pantanal, em seis pessoas, em um VW Caravelle. Na volta, saímos de Corumbá (MS) às 14h00. O tio aqui no banco do motorista. Todo mundo tinha acordado bem cedo para pescar. Quando chegou por volta de 22h00, depois de uns 500 km rodados, paramos pra reabastecer e comer. E eu reassumi o volante, fominha como sempre fui.
Dez minutos depois de sair do posto, todo mundo pegou no sono. E eu vim. E vim. E vim por cerca de mais uns 750 km, direto. De repente, a galera acordou quando entrei em outro posto para um “splash and go” final. Viram que estávamos passando por Tatuí – faltava uns 150 km pra São Paulo. Levei uma dúzia de broncas. “Onde já se viu? Quanta irresponsabilidade! Você guiou mais de 1.200 km!” O Edson, quieto. Dei lugar a outro motorista para fazer o trecho final e o ele cochicha pra mim. “Eu teria feito igual”.
Cada viagem era uma história.
E as lembranças, curiosamente, são em sua maioria geradas em situações em que tínhamos algum carro (ou moto) envolvido. Era onde, além de ser pai e filho, adicionávamos uma sólida amizade permeada pela paixão aos motores. Em sua oficina de empilhadeiras, por exemplo, aprendi os conceitos básicos de mecânica, quando ainda era adolescente.
E é claro que essa nostalgia me impulsiona a te dar um conselho. Se seu pai também gosta do mundo automotivo, não deixe para depois. Vá para estrada com ele. Serão algumas das melhores memórias que você terá! Ou, caso você já pertença à minha faixa etária, o mesmo ritual também vale: coloque seu filho no banco do passageiro – não dê moleza, senão o cara vai querer guiar o trajeto todo – e escreva novas histórias com ele.
Saudade, Edson.
Este texto contém análises e opiniões pessoais do colunista e não reflete, necessariamente, a opinião da Mobiauto.
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